Um movimento silencioso vem mudando a forma como chefs internacionais olham para o Cerrado e a Amazônia
Ingredientes que até pouco tempo eram conhecidos apenas em suas regiões de origem começam a aparecer em menus fora do Brasil, puxados por um apetite crescente por sabores autênticos e histórias de origem confiável.
O jambu é um dos exemplos mais falados. A flor que provoca uma sensação de dormência na boca, tradicionalmente usada no tacacá paraense e também em algumas cachaças, passou a ser mencionada pelo próprio Guia Michelin como um ingrediente com potencial global, justamente pela experiência sensorial que proporciona e foi destacado pelo guia pela sensação incomum que causa. Já o cumaru, apelidado de baunilha amazônica, ganha espaço em sobremesas, molhos e infusões, enquanto o baru, castanha típica do Cerrado, chama atenção pelo perfil nutricional rico em vitamina E, magnésio, potássio, zinco e fibra. Delivery Much
Por que esses ingredientes despertam interesse agora
Parte da explicação está em uma mudança de comportamento do consumidor, que hoje associa comer bem a comer com propósito. A National Restaurant Association elegeu conforto e nostalgia como uma das principais referências para 2026, e dois movimentos de sabor têm dominado os lançamentos no setor: combinações de doce com picante e de doce com salgado. O Brasil tem, segundo especialistas do setor, ingredientes nativos com potencial para liderar essa onda, como pimenta biquinho, pimenta de cheiro e doces de frutas do Cerrado combinados com pimenta.
Essa valorização acontece em um momento delicado para o food service brasileiro. O faturamento do setor cresceu de R$ 455 bilhões em 2024 para R$ 495 bilhões em 2025, mas uma pesquisa da Galunion mostrou que 90% dos consumidores reduziram os gastos com refeições no mesmo período, e o delivery caiu 11% nas classes A, B e C entre abril de 2024 e março de 2025. Ou seja: o público está saindo menos, mas quando decide gastar, busca uma experiência que realmente valha o preço, e ingredientes com identidade e origem clara ajudam a justificar essa escolha.
O que isso significa para quem cozinha em casa ou trabalha no setor
Para restaurantes e produtores, a lição prática é que originalidade paga. Cardápios que contam a história por trás do prato, seja explicando de onde vem o pequi ou por que o jambu causa aquela sensação característica, tendem a se conectar melhor com um público que já não se contenta apenas com sabor. Para quem cozinha em casa, vale a curiosidade: muitos desses ingredientes já aparecem em feiras, mercados especializados e até em versões industrializadas, como temperos e infusões, o que facilita experimentar essa culinária sem precisar viajar até a região de origem.
O interessante é que esse resgate de ingredientes regionais caminha lado a lado com uma tendência oposta, a da alimentação funcional e da busca por fibra e proteína no dia a dia. As duas coisas, aparentemente distintas, se encontram no mesmo ponto: o consumidor quer saber o que está comendo, de onde vem e por que aquilo faz sentido para ele, seja no sabor, seja na saúde.
Fontes consultadas:
https://blog.deliverymuch.com.br/tendencias-alimentares-2026/
https://rs.abrasel.com.br/noticias/noticias/tendencias-para-2026-consumo-consciente-impulsiona-cardapios-autorais-e-ingredientes-locais-na-gastronomia/
