Taiza Tosatt Eleoterio examina Lacan e o sujeito

Yuna Kisaragi Por Yuna Kisaragi
Taiza Tosatt Eleoterio

Quando se observa a psicanálise contemporânea, Taiza Tosatt Eleoterio, especialista em saúde mental e relações familiares, pontua que a obra de Jacques Lacan ocupa lugar de destaque para quem estuda a ligação entre linguagem, família e sofrimento psíquico. Nascido em 1901 e falecido em 1981, o psicanalista francês propôs, a partir dos anos 1950, um retorno aos textos de Freud, relidos com o apoio da linguística e da filosofia. Seu pensamento deu novo vocabulário à psicanálise familiar, pois passou a tratar o sujeito como alguém que se constitui na relação com o outro, e não isolado em si mesmo.

Estádio do espelho e o primeiro olhar da família

No entendimento de Taiza Tosatt Eleoterio, o estádio do espelho, apresentado por Lacan em 1936 e reformulado em 1949, oferece uma imagem valiosa para pensar o ambiente familiar e o lugar que a criança ocupa nele. O conceito trata do momento, entre os seis e os dezoito meses de vida, em que o bebê reconhece a própria imagem refletida e a celebra, quase sempre confirmado pelo olhar e pela voz de um adulto que lhe diz quem ele é. A identidade, portanto, começa a ser construída a partir do outro, ainda antes de a criança saber falar.

Se o olhar que acolhe é substituído por desprezo, medo ou imprevisibilidade, a criança pode encontrar mais dificuldade para formar uma imagem estável de si. Em termos práticos, crescer em um lar marcado por violência costuma exigir da criança um esforço enorme para decifrar humores e antecipar conflitos, o que afeta a saúde mental infantil de maneiras que variam de caso a caso. A psicanálise lacaniana não pretende oferecer um diagnóstico fechado, e sim escutar como cada criança e cada família vivem essas experiências.

Linguagem e manipulação emocional no relacionamento abusivo

Sob a perspectiva de Taiza Tosatt Eleoterio, a ideia lacaniana de que o inconsciente se organiza como linguagem oferece um caminho para compreender o peso das palavras dentro das relações, sobretudo as íntimas e familiares. Se o sujeito se forma na fala do outro, um discurso que contradiz, desqualifica e faz a pessoa duvidar do que viu ou sentiu tende a abalar sua confiança na própria percepção. É o que se descreve como gaslight, termo que remete à peça britânica Gas Light, de 1938, e que hoje nomeia uma forma recorrente de manipulação emocional.

Taiza Tosatt Eleoterio detalha que o trabalho analítico, nesse cenário, consiste em devolver à pessoa a palavra sobre a própria história, sem impor interpretações nem apressar decisões. Mais do que isso, a escuta atenta favorece a separação entre o que pertence ao discurso de quem manipula e o que pertence à experiência de quem o vive, um passo importante para reconstruir a autoestima. Nada disso implica responsabilizar quem viveu o abuso, pois o foco recai sobre os mecanismos de manipulação, e não sobre quem os sofre.

O que muda quando a escuta parte da linguagem?

Freud e Lacan compartilham a convicção de que falar transforma, mas diferem no ponto de apoio e no caminho que percorrem. Enquanto Freud concentrou boa parte de sua investigação nas pulsões e na história infantil, Lacan deslocou o foco para a linguagem e para o lugar que cada pessoa ocupa no discurso da família, muitas vezes antes mesmo de nascer, no modo como pais e parentes falam sobre a criança que esperam. Ainda assim, ambos tratam a fala como principal instrumento de cuidado e reconhecem que ninguém se conhece por inteiro sozinho.

Segundo a avaliação de Taiza Tosatt Eleoterio, o acompanhamento psicanalítico em situações de crise familiar ganha contornos próprios sob a orientação lacaniana, pois cada integrante é escutado em seu lugar na história do grupo, sem ser reduzido a um rótulo. Somado a isso, a rede de apoio comunitário e os serviços de assistência social continuam indispensáveis, já que a escuta analítica atua sobre o sentido do vivido, enquanto o acolhimento concreto assegura proteção, moradia e recursos básicos para que o recomeço seja possível.

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