Imposto seletivo, novos hábitos de saúde e o crescimento de cervejas e coquetéis sem álcool explicam a mudança no copo do consumidor.
Quem entra em um bar nos grandes centros brasileiros em 2026 encontra uma cena bem diferente da de poucos anos atrás. Ao lado da cerveja tradicional, crescem as opções de chopp e cerveja zero álcool, os mocktails ganham destaque na carta e até destilados sem teor alcoólico passam a ocupar espaço nas prateleiras. Levantamentos do setor mostram que essa não é apenas uma moda passageira, mas o retrato de uma mudança estrutural no consumo de bebidas no país. Fatores como o chamado imposto seletivo, a popularização de medicamentos que reduzem a vontade de beber e o crescimento de públicos que evitam álcool por convicção pessoal ou religiosa ajudam a explicar por que o mercado de bebidas sem álcool deve seguir em expansão nos próximos anos, mesmo em um país historicamente identificado com o consumo de cerveja e destilados.
Os números por trás da queda no consumo de álcool
Dados reunidos por reportagem do portal A Revista mostram que a indústria de bebidas alcoólicas tradicionais encolhe no Brasil enquanto a cerveja sem álcool e os rótulos premium avançam com força em 2026. A Ambev lançou versões zero álcool e zero açúcar, enquanto a Heineken registra avanço na linha 0.0, mesmo com retração nas vendas da cerveja tradicional. O segmento de bebidas prontas para beber, conhecido como RTD, cresce acima da média do setor, puxado principalmente pelo público jovem urbano, e fabricantes já projetam aumento de até 12% na produção durante o Carnaval para atender aos picos sazonais de consumo desse tipo de produto.
A tributação também pesa nessa equação. As bebidas alcoólicas passaram a integrar o chamado imposto seletivo, conhecido popularmente como imposto do pecado, o que elevou ainda mais os preços ao consumidor final. Uma cerveja comum já pode passar de cinco reais no varejo tradicional, enquanto rótulos premium em bares chegam a variar entre 15 e 30 reais por unidade, com destilados e vinhos importados registrando altas ainda mais acentuadas. Mesmo com a retração de volume no mercado de massa, o segmento premium segue crescendo, com previsão de movimentar mais de 800 bilhões de reais até 2026 no Brasil, em uma expansão de cerca de 50% em cinco anos, segundo a mesma reportagem.
Por que cada vez mais brasileiros escolhem beber menos ou não beber
Parte dessa mudança de comportamento tem raiz em fatores de saúde que vão além do preço. O Brasil já soma mais de 60 mil academias, número que triplicou em uma década, e o mercado de suplementos cresce acima de 20% ao ano há quatro anos consecutivos, sinal de que parte da geração que sustentava o consumo de álcool migrou para um estilo de vida mais ligado a performance física e bem-estar. Some-se a isso o uso crescente de medicamentos à base de semaglutida, voltados ao controle de peso e diabetes, que segundo estudos citados pela reportagem reduzem em até 40% a compulsão por bebidas alcoólicas entre usuários, um efeito colateral que já começa a aparecer nas estatísticas de consumo do setor.
A demografia religiosa do país também contribui para esse cenário. Em 2010, evangélicos representavam cerca de 22% da população brasileira, parcela que em 2026 se aproxima de 36%, o equivalente a mais de 74 milhões de pessoas, segundo a mesma análise. Como parte significativa desse público evita o consumo de álcool por convicção pessoal, o crescimento demográfico desse grupo também ajuda a explicar a retração estrutural do setor tradicional de bebidas alcoólicas. A leitura geral do mercado é de que a transformação não representa o fim do consumo de bebidas, e sim uma redistribuição entre categorias. O mercado brasileiro de bebidas não alcoólicas movimentava cerca de 32 bilhões de dólares em 2024 e a projeção é de que essa cifra supere 55 bilhões de dólares até 2034, o que coloca o Brasil como o segundo maior mercado de cerveja sem álcool do mundo, atrás apenas da Alemanha.
O que essa mudança significa para quem frequenta bares e restaurantes
Na prática, quem frequenta bares e restaurantes já sente essa transição no próprio cardápio. Reportagens do setor apontam o avanço do chamado movimento low ABV, sigla para baixo teor alcoólico, com destilados combinados a sodas, chás gelados e água com gás para criar drinks mais leves sem abandonar completamente o sabor da bebida original. Cresce também a presença de drinks funcionais, preparados com ingredientes como plantas adaptógenas, cogumelos funcionais e prebióticos, que prometem benefícios além do simples sabor, como mais foco, calma ou apoio à imunidade, conforme observado por colunistas especializados em comportamento de consumo.
Para o consumidor, essa diversidade amplia as opções na hora de socializar sem necessariamente envolver álcool, algo especialmente relevante para quem vai dirigir, está em tratamento médico, é gestante ou simplesmente prefere reduzir o consumo por escolha pessoal. Bares que investem em identidade própria para essas bebidas, em vez de tratá-las como substitutas sem graça dos drinks tradicionais, tendem a se destacar nesse novo cenário, segundo análises de comportamento publicadas por veículos como a CNN Brasil. Quem tem dúvidas sobre interações entre álcool, medicamentos ou condições de saúde específicas deve buscar orientação médica antes de qualquer mudança relevante de hábito, já que cada caso exige avaliação individual.
O copo do brasileiro está mudando, e essa transformação combina economia, saúde e comportamento social em uma única equação. O avanço do imposto seletivo torna o álcool mais caro, enquanto medicamentos para perda de peso e uma população cada vez mais ligada a hábitos saudáveis reduzem o interesse por bebidas tradicionais. Ao mesmo tempo, fatores demográficos e culturais reforçam a busca por alternativas sem álcool. O resultado não é o fim da vida noturna ou da cultura dos bares, mas uma reinvenção que inclui mais opções no cardápio e mais liberdade de escolha para quem só quer aproveitar um bom momento social, com ou sem teor alcoólico no copo.
Fontes: A Revista | Times Brasil | Beer Pass Club
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
