Cansaço que não é preguiça: Lucas Peralles explica a deficiência de ferro em atletas

Diego Rodríguez Velázquez Por Diego Rodríguez Velázquez
Lucas Peralles

Fadiga persistente, queda de rendimento nos treinos e dificuldade de recuperação são sintomas frequentemente atribuídos a excesso de treino ou falta de sono, mas Lucas Peralles, nutricionista esportivo, apresenta que uma causa muito mais comum do que se imagina costuma passar despercebida: a deficiência de ferro, presente em uma parcela expressiva de atletas, especialmente mulheres.

Um estudo alemão com mais de mil e cento e noventa atletas competitivos encontrou deficiência de ferro em quase vinte por cento dos participantes, sendo essa condição significativamente mais comum entre mulheres e atletas mais jovens. Diante desse número, Lucas Peralles reforça que investigar ferro deveria ser rotina em qualquer avaliação nutricional esportiva, e não apenas uma hipótese considerada depois de esgotadas outras explicações para queda de desempenho.

Por que atletas mulheres são particularmente vulneráveis a essa deficiência?

Pesquisas mostram que a combinação entre perda menstrual regular, maior demanda de ferro imposta pelo treino intenso e, muitas vezes, ingestão alimentar insuficiente desse mineral cria um cenário de risco elevado para mulheres praticantes de esportes de resistência. Um estudo japonês com atletas universitários identificou que a deficiência de ferro é uma preocupação de saúde prevalente especificamente entre mulheres jovens atletas em diferentes modalidades esportivas, reforçando que esse não é um problema restrito a poucos casos isolados.

Segundo Lucas Peralles, o próprio treino intenso contribui para essa deficiência através de múltiplos mecanismos, incluindo pequenas perdas sanguíneas gastrointestinais durante exercícios de impacto prolongado, perda de ferro pelo suor e um fenômeno chamado hemólise do pé, no qual os glóbulos vermelhos são destruídos pelo impacto repetido dos pés contra o solo durante corridas de longa distância. Esse conjunto de fatores explica por que corredoras de longa distância figuram entre os grupos de maior risco para deficiência de ferro dentro do universo esportivo.

Uma deficiência leve, sem anemia declarada, já prejudica o desempenho?

Sim, e esse é um ponto frequentemente mal compreendido. O mesmo estudo alemão encontrou que atletas com deficiência de ferro, mesmo sem anemia associada, apresentaram capacidade aeróbica máxima mensuravelmente menor do que atletas com níveis adequados desse mineral. Uma revisão sistemática mais recente, reunindo vinte e três estudos com quase setecentas atletas mulheres, calculou que a deficiência de ferro reduz o desempenho de resistência entre três e quatro por cento, uma margem capaz de determinar o resultado de qualquer competição.

Lucas Peralles
Lucas Peralles

Lucas Peralles costuma destacar que essa mesma revisão trouxe uma boa notícia: quando essas atletas foram tratadas com suplementação oral de ferro elementar, o desempenho de resistência melhorou entre dois e vinte por cento, dependendo do protocolo utilizado. Essa margem de melhora é grande o suficiente para justificar investigação de rotina, especialmente entre atletas que treinam mais de cinco horas semanais ou apresentam capacidade aeróbica elevada, população na qual esses estudos concentraram sua análise.

Como diagnosticar corretamente essa deficiência antes que ela comprometa o treino?

O exame mais sensível para identificar deficiência de ferro é a dosagem de ferritina sérica, proteína que reflete os estoques desse mineral no corpo, sendo valores abaixo de vinte microgramas por litro considerados indicativos de deficiência, mesmo na ausência de anemia propriamente dita, definida por níveis baixos de hemoglobina. Pesquisas recentes têm inclusive proposto limiares ainda mais sensíveis de ferritina para identificar deficiência em estágio inicial em mulheres jovens, antes que o quadro evolua para uma condição mais grave.

Esse detalhe é importante porque muitos exames de rotina avaliam apenas hemoglobina, deixando passar despercebida uma deficiência de ferro já instalada, mas ainda sem anemia clinicamente evidente. Assim, Lucas Peralles retrata que solicitar ferritina de forma proativa, especialmente em atletas mulheres com queixas de fadiga inexplicada, é uma das intervenções de maior custo-benefício dentro de qualquer acompanhamento nutricional esportivo sério.

Como abordar essa deficiência de forma segura e eficaz?

Reconhecer o alcance real dessa deficiência ajuda a posicionar a investigação de ferro como parte essencial, e não opcional, do acompanhamento de atletas, especialmente mulheres em modalidades de resistência. Isso não significa suplementar ferro indiscriminadamente sem exame prévio, já que o excesso desse mineral também traz riscos à saúde e deveria ser sempre orientado por avaliação laboratorial e acompanhamento profissional adequado.

Para Lucas Peralles, tratar a fadiga persistente como sintoma a ser investigado, e não simplesmente como parte inevitável de uma rotina de treino intenso, é uma mudança de postura que pode transformar significativamente o desempenho e o bem-estar de atletas mulheres. Entender essa deficiência como condição comum, tratável e frequentemente subdiagnosticada é, segundo ele, um dos avanços mais práticos que a nutrição esportiva pode oferecer a esse público específico.

 

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