Crescer na periferia com acesso à tecnologia: O que muda na vida de uma criança

Diego Rodríguez Velázquez By Diego Rodríguez Velázquez
Eloizo Gomes Afonso Duraes

Existe um experimento social silencioso acontecendo há mais de duas décadas no bairro do Jaguaré, em São Paulo. Crianças que nunca haviam tocado em um computador entram pela primeira vez numa sala com monitores, teclados e a possibilidade concreta de aprender algo que o mundo lá fora já trata como obrigação básica. Eloizo Gomes Afonso Duraes começou esse experimento em setembro de 2003, sem chamar assim, sem aguardar resultados para publicar. Começou porque era necessário, e os resultados vieram com o tempo.

A desigualdade que ninguém fotografa

A exclusão digital tem uma característica incômoda: ela é quase invisível para quem não a experimenta. Quem cresceu com computador em casa, com internet rápida e com adultos capazes de ensinar como usar essas ferramentas raramente percebe o abismo que existe entre sua experiência e a de crianças que chegam ao mercado de trabalho sem saber abrir um arquivo de texto, montar uma planilha ou enviar um e-mail com formatação adequada.

Esse abismo tem consequências diretas na renda, nas oportunidades profissionais e na capacidade de navegação burocrática da vida adulta, desde acessar benefícios governamentais online até compreender um contrato digital. Eloizio Gomes Afonso Duraes identificou essa desigualdade antes que ela se tornasse pauta pública e construiu uma resposta prática e duradoura dentro da Fundação Gentil Afonso Duraes.

Eloizo Gomes Afonso Duraes
Eloizo Gomes Afonso Duraes

O currículo que prepara para o mundo real

O curso de informática da Fundação não foi desenhado para produzir programadores ou especialistas em tecnologia. Foi desenhado para produzir cidadãos digitais funcionais: pessoas capazes de usar as ferramentas que o mercado de trabalho formal exige como condição mínima de entrada. Programas de apoio à alfabetização, digitação, pacote Office, sistemas operacionais e navegação segura na internet formam um currículo que é, simultaneamente, prático e transformador.

Para uma criança de periferia, dominar o Word e o Excel não é um diferencial competitivo. É a linha que separa o acesso ao mercado formal do confinamento ao informal. Eloizo Gomes Afonso Duraes entendeu essa linha com precisão e construiu um programa que ajuda crianças a cruzá-la.

Duas décadas antes de a pauta virar moda

Um aspecto que merece destaque na trajetória de Eloizio Gomes Afonso Duraes é o timing. Quando ele iniciou as aulas de informática no Jaguaré, inclusão digital ainda não era uma bandeira política consolidada no Brasil. O país discutia outras prioridades. A Fundação Gentil Afonso Duraes já estava na prática, ensinando tecnologia para crianças de periferia com regularidade e seriedade, muito antes de o tema ganhar os holofotes que hoje ocupa.

Esse pioneirismo silencioso é, em si mesmo, uma forma de liderança. Liderança que não espera pelo consenso para agir, que não precisa de validação externa para reconhecer uma necessidade urgente e que não mede seu valor pelo quanto de visibilidade consegue gerar.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

 

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