Quem cuida dos pais idosos e dos filhos no Brasil? Veja com o Doutor Yuri Silva Portela

Yuna Kisaragi Por Yuna Kisaragi
Yuri Silva Portela

Cuidar dos filhos enquanto os próprios pais envelhecem tornou-se uma realidade para muitas famílias brasileiras. O Doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, está associado a uma área da medicina que acompanha de perto os desafios provocados pelas mudanças na estrutura familiar e pelo aumento da longevidade. Conhecida como geração sanduíche, essa parcela da população precisa conciliar responsabilidades profissionais, financeiras e afetivas com o cuidado de duas gerações. 

Por que a geração sanduíche está crescendo?

O envelhecimento populacional brasileiro modifica a composição das famílias e amplia a necessidade de cuidados prolongados. Ao mesmo tempo, a decisão de ter filhos mais tarde pode fazer com que determinadas pessoas enfrentem responsabilidades parentais enquanto seus próprios pais começam a apresentar limitações funcionais. Essa sobreposição cria demandas que anteriormente poderiam ocorrer em momentos diferentes da vida. Como consequência, a organização familiar precisa se adaptar a uma convivência mais prolongada entre gerações com necessidades distintas de atenção e assistência.

Outro fator envolve a redução do tamanho das famílias. Com menos irmãos disponíveis para compartilhar responsabilidades, o acompanhamento de pais idosos pode ficar concentrado em uma única pessoa. Consultas médicas, administração de medicamentos e organização das despesas passam a integrar uma rotina que também inclui trabalho e educação dos filhos. Essa concentração de tarefas pode dificultar a divisão equilibrada das obrigações e aumentar a pressão sobre familiares que já possuem compromissos profissionais e domésticos.

Entretanto, a geração sanduíche não apresenta um perfil único, comenta o Doutor Yuri Silva Portela. Algumas pessoas oferecem principalmente ajuda financeira, enquanto outras assumem cuidados presenciais diariamente. A intensidade dessa responsabilidade depende das condições de saúde dos familiares, da renda disponível e da existência de redes de apoio. Além disso, a proximidade geográfica entre os membros da família pode influenciar diretamente a distribuição das tarefas e a frequência do acompanhamento oferecido aos idosos.

Yuri Silva Portela
Yuri Silva Portela

Como o cuidado simultâneo afeta a rotina familiar? Confira com o Doutor Yuri Silva Portela

A conciliação de responsabilidades pode provocar dificuldades na organização do tempo. Uma emergência médica envolvendo um familiar idoso, por exemplo, pode coincidir com compromissos escolares ou profissionais. Quando essas situações se repetem, a pessoa responsável precisa reorganizar constantemente suas atividades, muitas vezes sem conseguir reservar períodos adequados para descanso.

Na perspectiva da geriatria, área de formação do Doutor Yuri Silva Portela, essa realidade evidencia a importância de considerar o contexto familiar durante o acompanhamento de pessoas idosas. A continuidade dos cuidados depende não apenas das orientações médicas, mas também das condições práticas de quem precisa organizar consultas, tratamentos e atividades cotidianas.

Quem assume a maior parte dessas responsabilidades?

Historicamente, as mulheres desempenham uma parcela expressiva do trabalho de cuidado não remunerado no Brasil. Filhas, esposas e noras frequentemente assumem atividades relacionadas à alimentação, higiene, acompanhamento médico e administração doméstica. Essa distribuição desigual pode limitar oportunidades profissionais e aumentar a sobrecarga física e emocional. Além disso, muitas mulheres precisam reduzir suas jornadas de trabalho ou interromper atividades remuneradas para atender às necessidades de familiares dependentes.

O problema também envolve a dificuldade de reconhecer o cuidado como trabalho. Muitas tarefas são realizadas diariamente, mas permanecem invisíveis porque não geram remuneração. Entretanto, exigem tempo, organização e conhecimentos específicos, principalmente quando existem doenças crônicas ou limitações importantes de mobilidade. A ausência desse reconhecimento também pode dificultar a criação de mecanismos de apoio e de políticas públicas voltadas às pessoas que assumem essas responsabilidades.

Para o Doutor Yuri Silva Portela, cuja formação contempla as particularidades do envelhecimento, a discussão permite relacionar as necessidades dos idosos à capacidade de suporte disponível no ambiente familiar. Quando as responsabilidades ficam concentradas, o desgaste do cuidador pode comprometer tanto seu bem-estar quanto a continuidade da assistência. Por isso, identificar sinais de sobrecarga e estimular a participação de outros familiares são medidas importantes para preservar a qualidade dos cuidados oferecidos e a saúde de quem os realiza.

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