Investimentos em ativos estressados: como identificar valor onde o mercado enxerga apenas risco?

Diego Rodríguez Velázquez Por Diego Rodríguez Velázquez
Felipe Rassi

Felipe Rassi, especialista no mercado financeiro, ressalta que o investimento em ativos estressados exige uma combinação pouco comum de disciplina analítica, tolerância calculada ao risco e profundo conhecimento dos mecanismos jurídicos e operacionais que determinam a recuperabilidade de cada ativo. Entre os principais desafios de quem opera nesse segmento no Brasil em 2026 está a capacidade de distinguir, dentro do universo crescente de ativos deteriorados, aqueles que carregam valor recuperável real daqueles que representam apenas a aparência de oportunidade, competências que o volume expressivo disponível no mercado atual torna mais necessárias do que nunca.

O que diferencia um ativo estressado de um ativo inviável?

A fronteira entre um ativo estressado com potencial de recuperação e um ativo estruturalmente inviável é, com frequência, menos evidente do que parece à primeira análise. Empresas com operações genuinamente viáveis podem apresentar indicadores financeiros que, isoladamente, sugerem deterioração irreversível, enquanto organizações sem perspectiva real de recuperação podem manter aparências de solidez por períodos surpreendentemente longos. Navegar essa ambiguidade com precisão é uma das habilidades centrais de quem investe nesse segmento.

Conforme esclarece Felipe Rassi, os critérios que separam as duas categorias raramente estão nos demonstrativos financeiros auditados. Estão na qualidade da gestão, na posição competitiva do negócio dentro do seu setor, na estrutura das garantias vinculadas ao crédito e na existência de ativos tangíveis com valor de mercado independente da performance operacional da empresa. Uma análise que se limita aos números contábeis perde exatamente as variáveis que mais importam nessa distinção.

Estratégias de entrada e critérios de precificação

Definir o preço certo de entrada em uma operação de ativo estressado é um exercício que combina modelagem financeira, análise jurídica e leitura de mercado em tempo real. O deságio aplicado sobre o valor nominal do ativo precisa refletir não apenas o risco de recuperação, mas também o custo operacional do processo, o prazo estimado até a realização do retorno e a taxa mínima de atratividade do investidor para o perfil de risco envolvido.

Felipe Rassi
Felipe Rassi

Na concepção de Felipe Rassi, um dos erros mais recorrentes entre investidores menos experientes nesse segmento é precificar o ativo com base no melhor cenário de recuperação, sem ponderar adequadamente os cenários intermediários e adversos. As operações de ativos estressados raramente evoluem exatamente conforme o planejado: surgem passivos ocultos, garantias contestadas, litígios não mapeados e mudanças no ambiente regulatório que alteram as premissas iniciais. O preço de entrada precisa contemplar essa incerteza de forma objetiva, não otimista.

O ambiente regulatório e jurídico como variável de retorno

O retorno de um investimento em ativo estressado não depende apenas da qualidade do ativo em si, mas do ambiente regulatório e jurídico dentro do qual a recuperação será conduzida. No Brasil, as reformas implementadas a partir da Lei 14.112 de 2020 trouxeram avanços relevantes na previsibilidade dos processos de recuperação judicial e na proteção dos credores com garantia real, mas a aplicação dessas normas ainda apresenta variação significativa entre jurisdições.

Como destaca Felipe Rassi, investidores estrangeiros que ingressam no mercado brasileiro de ativos estressados frequentemente subestimam o impacto da variável jurisdicional nos seus modelos de retorno. A diferença no tempo médio de execução de uma alienação fiduciária entre uma vara empresarial especializada em São Paulo e um juízo comum no interior de um estado com menor infraestrutura judicial pode representar anos de prazo adicional e custos que alteram completamente a equação de retorno projetada.

Gestão ativa do ativo após a aquisição

A aquisição de um ativo estressado marca o início do trabalho, não o seu ponto culminante. A gestão ativa do ativo no período pós-aquisição é o que converte o potencial de retorno identificado na análise inicial em resultado financeiro concreto. Essa gestão envolve decisões contínuas sobre a estratégia de cobrança, a conveniência de renegociação com o devedor, a necessidade de intervenção judicial e, em casos de conversão de dívida em participação societária, o acompanhamento da gestão operacional da empresa.

Segundo aponta Felipe Rassi, gestoras que desenvolvem capacidade interna robusta de gestão pós-aquisição consistentemente superam aquelas que terceirizam integralmente essa etapa sem manter supervisão técnica próxima do processo. A recuperação de ativos estressados é uma disciplina que recompensa presença ativa, monitoramento constante e capacidade de ajustar a estratégia à medida que o processo evolui e novas informações sobre o devedor e o ativo se tornam disponíveis.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

 

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