Obras de grande porte que estouram prazo e orçamento costumam ter o problema plantado muito antes de as máquinas chegarem. Na avaliação de Diego Borges, boa parte dos atrasos e aditivos contratuais nasce em decisões tomadas nas fases de projeto e planejamento, quando corrigir ainda custa pouco. Rodovias, hospitais, sistemas de saneamento e linhas de transporte repetem um roteiro conhecido de paralisações, revisões e renegociações.
Projeto básico incompleto abre a porta para aditivos
O projeto básico é o conjunto de estudos e desenhos que define a obra com precisão suficiente para estimar custos e prazos. Quando ele é contratado às pressas ou com sondagens insuficientes, a obra começa com lacunas que só aparecem no canteiro, como um solo diferente do previsto ou uma interferência não mapeada.
Cada lacuna vira uma alteração de projeto, que exige novo cálculo, nova aprovação e, muitas vezes, um termo aditivo ao contrato. A Lei 14.133, de 2021, que rege as licitações públicas, limita os acréscimos a 25% do valor inicial em obras e a 50% em reformas de edifícios, o que pode levar à paralisação ou a uma nova licitação quando as mudanças superam esse teto.
Sondagens geotécnicas, levantamento topográfico detalhado e cadastro de redes existentes custam uma fração do valor total da obra, mas evitam surpresas capazes de multiplicar o orçamento. Economizar nessa etapa para acelerar a licitação costuma sair caro, porque o imprevisto descoberto com a obra em andamento é sempre mais difícil de resolver.
Licenciamento e desapropriação definem o calendário real
Licenças ambientais, autorizações de órgãos de patrimônio e desapropriações de imóveis têm prazos próprios, que não dependem da velocidade da construtora. Iniciar a obra sem essas etapas resolvidas é uma forma comum de antecipar o anúncio e atrasar a entrega. Como observa Diego Borges, um trecho travado por falta de licença pode paralisar frentes inteiras que dependem dele.

O planejamento maduro trata o licenciamento como caminho crítico, e não como formalidade paralela. Mapear as condicionantes ambientais, negociar com antecedência as desocupações e prever prazos para manifestações de órgãos externos ajuda a construir um cronograma que corresponde ao que de fato pode ser executado. Em obras lineares, como rodovias e adutoras, liberar o terreno por trechos permite avançar enquanto o restante do licenciamento é concluído.
Matriz de riscos e a divisão de responsabilidades
Toda grande obra carrega riscos geológicos, climáticos, de preço de insumos e de mudanças regulatórias. A nova lei de licitações passou a prever a matriz de riscos, cláusula que define quem arca com cada tipo de evento, contratante ou contratado. Em contratações de grande vulto, a matriz se tornou obrigatória e passou a orientar, já na licitação, o preço proposto pelos concorrentes.
Na prática, a distribuição clara reduz disputas. Quando o contrato não diz quem assume uma variação inesperada, cada imprevisto vira negociação, e a obra desacelera enquanto as partes discutem. Para Diego Borges, a matriz só cumpre esse papel quando é construída com base em estudos técnicos reais, e não copiada de outro contrato.
Como a gestão no canteiro reduz o atraso acumulado?
Mesmo com bom planejamento, a execução precisa de acompanhamento constante. Ferramentas de modelagem da informação da construção, conhecidas pela sigla BIM, permitem simular etapas, detectar conflitos entre disciplinas antes que virem retrabalho e comparar o avanço físico com o previsto. O modelo também facilita o trabalho da fiscalização, que passa a acompanhar a obra sobre uma base única de informações.
A gestão depende ainda de decisões rápidas. Obras em que cada consulta técnica leva semanas para ser respondida acumulam pequenos atrasos que, somados, comprometem marcos importantes. Sob a ótica de Diego Borges, um fluxo ágil de aprovação entre fiscalização, projetistas e construtora pesa tanto quanto a produtividade das equipes.
